Anel
do Contabilista
O que de fato significam os símbolos, quando se referem
ao nosso exercício profissional, é matéria
de nosso interesse. O anel do Contabilista é sempre
motivo de interrogação sobre seu verdadeiro
significado. Sabemos que a interpretação é
sempre um risco, mas a imaginação supre e
compensa, quando nos permite dar sabor de dignidade ao que
conosco carregamos. A simbologia do nosso anel perde-se
na noite dos tempos, mas muito dela ainda resta para comentarmos
e buscarmos em seus verdadeiros significados.
O anel do profissional da Contabilidade simboliza e exterioriza
o compromisso, a aliança, a união do profissional
com o conhecimento científico contábil, o
campo do saber, e sua disposição de aplicá-lo
em benefício da comunidade em que vive, engrandecendo
e valorizando sua profissão, e enaltecendo sua pátria.
Ele se explicita à sua condição, traz-lhe
a subserviência às normas científicas
e a vinculação do seu comportamento aos preceitos
da ética e da moral.
A Simbologia do Anel de Grau
Símbolos são lembranças de conceitos.
Diz um antigo ditado que um símbolo vale mais que
cem palavras. Nas profissões os anéis representam
os graus que conseguimos, ou seja, evidenciam que nos qualificamos
em determinado campo do conhecimento. Como a aliança
representa a constituição matrimonial, e os
escudos representam as agremiações ou entidades,
da mesma forma, os anéis são peças
representativas, e enquanto “anéis de grau",
eles identificam as profissões que dependem de estudos.
Atuando em uma das mais antigas profissões
do mundo (a Contabilidade já era exercida na Suméria
há quase 6.000 anos), o contabilista também
criou o seu anel. No Brasil, ele vem desde o tempo dos "peritos-contadores"
(há mais de 50 anos), e desde seu aparecimento possui
as seguintes características:
a. estrutura em ouro;
b. pedra principal cor de rosa forte (rubislite);
c. ladeando a pedra principal, dois brilhantes, um em cada
flanco;
d. em uma lateral a tábua da lei em platina ou ouro
branco;
e. em outra lateral o caduceu estilizado em platina ou ouro
branco.
Todos esses componentes formam um agregado
e possuem um significado, ou seja, eles são simbólicos.
As interpretações variam, mas as que conhecemos
e admitimos, passam a prevalecer. Em verdade tudo vem de
uma tradição, de um costume, e não
de um dever ou obrigação. Símbolos
não são normas compulsórias, a não
ser, quando integrantes de um complexo interpretativo como
os idiomas e os teoremas.
A Pedra Cor de Rosa (Rubislite)
A tradição deu ao anel do contabilista a identificação
central, por sua pedra cor de rosa forte. Classificada como
semipreciosa, ela possui estrutura hexagonal, apresenta
índice de 7,5 a 8 na escala de dureza de Mohs (que
varia de 1 a 10). Quando apareceu, a profissão ainda
não estava dividida em técnicos e contadores.
Eram só peritos-contadores e, posteriormente, contadores
(a última turma, antes da divisão, foi formada
no final da década de 40 do atual século XX).
Tal pedra é um silicato hidratado
de alumínio, ferro, magnésio e potássio
e tem a cor rosada mais forte. O nome RUBISLITE vem da Escócia,
do termo Rubislaw e foi dado por Heddle em 1879. A cor eleita
provém da semelhança com a do Direito _ o
Rubi _ dadas as ligações doutrinárias
que no início do século existiam entre a Contabilidade
e o Direito, a ponto do anel ter de um lado a Tábua
da Lei, e do outro, o Caduceu.
Naquela época, predominavam no Brasil
as aulas de Carlos de Carvalho, com forte influência
personalista. Aprendia-se a definição de patrimônio
como "conjunto de bens, direitos e obrigações".
Portanto, predominava a corrente personalista. As explicações
científicas eram buscadas na vizinhança, ou
seja, no Direito.
Os próprios conceitos de “débito”
e “crédito”, que ainda hoje utilizamos,
surgiram de uma extensão dos registros de contas
pessoais do meu e do seu. Na baixa Idade Média, ensinava-se
o processo da partida dobrada, a partir do conceito jurídico:
"faça de conta que essa caixa é uma pessoa
que você debita por tudo que a entrega, e credita
por tudo que dela recebe". Assim, está registrada
na obra de Luca Pacioli, a forma de ensinar a debitar e
creditar, em 1494, há meio milênio passado.
A influência da força jurídica
predominou nas mais fortes correntes doutrinárias,
mesmo na era científica, surgida no século
XIX. Embora a corrente personalista tenha sido ultrapassada
pelas teorias modernas do controlismo de Fábio Besta,
do patrimonialismo de Masi, do aziendalismo de Zappa, até
hoje, por inacreditável que pareça, ainda
estamos a emitir algumas normas pautadas na ciência
jurídica.
Alega-se que essa passagem do antigo domínio
do Direito para as correntes materialistas, com a adoção
do título de contador para Bacharéis, Mestres
e Doutores, deu origem à mudança da cor da
pedra para um azul forte, bem escuro. O uso das duas cores
passou, inclusive, a admitir, para alguns, que a rosa se
conservaria para os técnicos, e a azul, para os contadores.
Teríamos, nessa hipótese,
duas pedras, para os dois graus respectivos: o médio
e o superior. Há, ainda, quem admite que o anel é
privativo de quem diploma-se no curso superior e que os
técnicos não teriam direito a tal prerrogativa.
Seja como for, a pedra simboliza essa afinidade com a lei
e tem sua cor próxima a de uma profissão dedicada
às leis, com fortes ligações com a
Contabilidade.
Entretanto, a tradição ainda
está a conservar a pedra rosa como a predominante
(Rubislite). As preferências têm ditado o uso,
e a tradição pesa, ainda, a favor da pedra
cor de rosa forte, pois assim era antes da segmentação,
quando só haviam contadores.
Os Brilhantes
Os brilhantes que ladeiam a pedra principal não são
privilégio da nossa profissão. Todos os anéis
de grau possuem os brilhantes. Atribui-se a isto o símbolo
do "valor cultural", associado ao "maior
valor das pedras preciosas". É a nobreza da
natureza, lapidada: o diamante que virou brilhante, a pedra
bruta que virou pedra polida, luzente, e a mais nobre de
todas as pedras.
Tal simbologia é antiga. Comparou-se
sempre o homem sem instrução com a pedra bruta,
e depois de receber a luz da sabedoria, com a pedra polida.
Muita literatura tem se dedicado a tal comparação
(como a interessante obra do Dr. Getúlio Gadelha
Dantas: "Fragmentos da Pedra Bruta", editada pela
LEMI, em Belo Horizonte, s/data), por ser realmente significativa
no campo simbólico.
Admitimos, pois, como aceitável
e muito adequada a inserção dos brilhantes
para significar o polimento cultural no anel que representa
o grau de cultura. Os símbolos do "polimento
do homem" e da "expressividade do valor de tal
polimento" representam a natureza de sua qualidade
e a grandeza de sua importância no contexto cultural.
A Tábua da Lei
Em um dos flancos do anel se insere a Tábua da Lei.
Ela tem a forma clássica de um retângulo, encimado
por um semicírculo que se insere no meio da horizontal
superior da figura, eqüidistante das laterais verticais;
ao meio, o retângulo se divide por uma linha vertical
onde, em seus espaços existem pequenas horizontais,
sugerindo algo escrito, como se fossem normas ali gravadas.
Advém da antiga tradição
que a lei foi entregue a Moisés em uma tábua,
contendo os mandamentos ou normas de convivência dos
homens, e que seriam as leis de Deus. Outros dizem que,
provém das tábuas onde eram inscritas, as
leis básicas de antigas civilizações,
como as de Cartago e Roma. As de Cartago eram gravadas em
bronze e eram tábuas expostas. As de Roma, antiga,
na fase áurea de sua afirmação como
civilização, seriam as famosas XII Tábuas.
As leges regiae, do tempo da realeza em Roma, eram apenas
dispositivos de Direito costumeiro, relativos principalmente
às coisas sacras, e só indiretamente relacionados
com o Direito privado.
A Lei das XII Tábuas (Lex Duodecim
Tabularum), em vigor desde 449 a.C., foi uma codificação
geral redigida por dez magistrados. Nem todos os seus dispositivos
chegaram até os tempos atuais, mas, por meio das
escritas dos jurisconsultos, ela pôde ser estudada
em suas tendências e detalhes. Era um código
de Direito privado, com prescrições de Direito
penal e alguns artigos de Direito religioso. Acredita-se
que uma missão romana tenha ido aos Estados Gregos
para inspirar-se em suas leis. A idéia da codificação
talvez fosse grega, mas ela traz a marca incontestável,
e em alto grau, do espírito romano. Não tem
fundo helênico, mas codifica os velhos costumes nacionais.
Gravados os seus dispositivos em placas de bronze, era exposta
em logradouros públicos. Constituía a base
da cultura jurídica. Em criança, Cícero
a teria decorado.
O conteúdo jurídico da Lei
das XII Tábuas era relativo à liberdade pessoal
e à igualdade dos cidadãos: garantia a liberdade
de ação individual no domínio privado,
reconhecendo contratos e testamentos; definia certos pontos
de Direito privado como usucapio, obligatio, manus, patriapotestas,
tutela e connubium. Continha também esta lei, a prescrição
de penalidade em caso de falso testemunho, corrupção,
calúnia e outros crimes. Além disso, ela regulava
as formas de processo e ditava regras de higiene e de economia.
A Lei das XII Tábuas punha termo
às arbitrariedades dos magistrados patrícios
e às injustiças geradas pela ausência
de uma legislação escrita. Ao Direito costumeiro,
desconhecido do vulgo, desigual para patrícios e
para plebeus, substituía um código conhecido
de todos, garantindo, em quase todos os casos, direitos
iguais.
Codificada a legislação do
passado, a lei não ficou cristalizada, mas continuou
a progredir e a adaptar-se às alterações
sociais que surgiam. De fato, ela deu base a um Direito
costumeiro novo, o jus civile, cujas fontes eram a interpretation
ou responsa prudentium e os éditos dos magistrados,
investidos da função judiciária, ou
jurisdictio, como os pretores urbanos e peregrinos. Nova
consolidação só foi feita mil anos
mais tarde, no tempo de Justiniano.
Disto tudo, ao longo do tempo, a expressão
Tábua da Lei tornou-se inequívoca, enquanto
um símbolo que hoje representa aquela forma de editar
a legislação. Também os balanços
do governo _ no tempo da civilização pré-helênica,
minóica _eram expostos em praça pública,
em tábuas de mármore (como Melis comprovou
ser nos estudos realizados na Ilha de Creta). A escrita
dos sumero babilônios, há 6000 anos, era feita
em tábuas de argila. Seja o que for, a tábua
particular ou pública, que era um instrumento de
respeito e uso da "lei", representa o símbolo
onde se gravavam as obrigações do homem perante
seus semelhantes, perante o Estado.
A profissão contábil está,
de fato, muito atada, em sua parte de escrita de demonstração
e de informação, ao regime legal (o que já
não ocorre no campo da ciência onde o fenômeno
prevalece sobre a forma da lei). Aceitar a tábua
como instrumento simbólico, e a Tábua da Lei
como afinidade íntima, parece-nos justo, para lembrar
perenemente a responsabilidade legal da escrita contábil
como instrumento de fé pública, e como o limite
em que a atuação profissional não deve
transgredir. Todas essas idéias se adaptam à
uma simbologia que apresenta, como uma de suas bases, a
responsabilidade na execução da lei.
As tábuas foram familiares ao uso
da escrita pelas civilizações mais antigas,
e a lei uma incumbência que terminou por responsabilizar
os contabilistas como poderosos e importantes colaboradores
e geradores de informações do sistema legal.
Tudo isto, em função da escrita, que hoje
sabemos representar, apenas, uma parte da cultura contábil.
Por muito tempo e até princípios do século
XIX, confundiu-se o conhecimento contábil apenas
com o de registrar e informar. Somente a evolução
científica libertaria a Contabilidade do domínio
da forma (informação) para fazer prevalecer
o da essência (o fenômeno patrimonial).
As tradições do anel, todavia,
prendem-se à essa fase aparente de nossa profissão,
em seu estágio inicial. Na outra lateral do anel
está uma figura que representa uma estilização
do caduceu, mostrando-o encimado pelo capacete do deus Mercúrio
ou Hermes (o primeiro, da mitologia romana, e o segundo,
da mitologia grega, mas identificáveis, pelos historiadores,
como sendo o mesmo).
A Simbologia na Realidade Profissional
O anel do contabilista é um agregado de símbolos
que deve sugerir ao seu portador lembranças importantes,
relativas ao desempenho profissional específico de
sua área, não havendo distinção
entre o anel do Contador e do Técnico em Contabilidade.
Sendo um objeto identificador de cultura e habilitação
para o exercício da profissão contábil,
seus símbolos inspiram significações
nitidamente sociais, ligadas à lei e à proteção
dos que desempenham atividades, visando cumprir finalidades
humanas produtivas, em favor próprio e da sociedade.
A tábua da lei, o caduceu, a pedra
rosa forte e os brilhantes são símbolos de
qualidades culturais da profissão que lembram os
deveres do contabilista como colaboradores e geradores de
informações no cumprimento do direito, como
guardiões da riqueza nas atividades produtoras da
satisfação das necessidades humanas e sociais.
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