O Patrono da Contabilidade
- Luca Pacioli
LUCA PACIOLI HOMEM DO RENASCIMENTO
Em razão de ter produzido uma obra sobre temas matemáticos,
na qual inseriu matéria contábil, Luca Pacioli
celebrizou-se como um grande difusor dos critérios
de escrituração mercantil.
Embora não seja ele o autor das
partidas dobradas, nem um inovador de coisa alguma nos procedimentos
destas e tão pouco o autor do primeiro livro de difusão
contabilística, coube-lhe, todavia a primazia da
primeira edição "impressa", pois,
várias outras obras, produzidas há milênios,
eram todas manuscritas.
A vida desse ilustre personagem merece
análise, para melhor identificação
da obra com um homem que inaugurou uma nova fase na literatura
da Contabilidade, cujos efeitos jamais se interromperiam.
LUCA PACIOLI E PACIOLO
Uma dúvida que sempre ocorre é
se devemos dizer PACIOLO ou PACIOLI, quando nos referirmos
ao sobrenome do autor da primeira obra "impressa"
que divulgou o processo das Partidas Dobradas (1494) e que
rompeu uma inércia de quase três séculos
em matéria de literatura contábil.
Encontramos o uso dos dois sobrenomes,
ora bem aplicados e outras erroneamente referidos.
Ambos, todavia, por uma fidelidade à
origem, podem ser usados, mas, admito, para que sejam adequados
no emprego, com a observância das particularidades
relativas às raízes idiomáticas.
Isto porque, em verdade, o que aconteceu,
no aparecimento das duas designações, foi
uma peculiaridade no antigo idioma italiano, falado na época
de Paciolo, na Toscana (terra do denominado pai da língua
italiana, Dante Alighieri).
O sobrenome terminado com a letra "i",
quando junto ao nome, conservava tal letra; portanto, ao
dizer nome e sobrenome juntos usava se falar, por exemplo:
Michelangelo Buonarotti; logo, também se dizia :
LUCA PACIOLI.
Quando, entretanto, se pronunciava só
o sobrenome, transformava se o "i" em "o"
e, então, dizia se IL BUONAROTTO, logo, também,
IL PACIOLO.
Portanto, o correto era dizer se: LUCA
PACIOLI, ou, então, IL PACIOLO.
Não são sobrenomes diferentes,
mas a forma de dizer um mesmo sobrenome: se "junto
do nome" (com "i"), ou "sozinho"
(com "o").
Existem referências de que o nome
completo do Frei seria:
LUCA BARTOLOMEO PACIOLI, ao que se acrescentava
DI BORGO DI SAN SEPOLCRO.
O nome Bartolomeo, todavia, era o do pai
de Luca e nas obras maiores que o Frei editou não
há referência, ao nome Bartolomeo.
Era também comum, por exemplo, dizer-se
"Leonardo fi Bonacci", ou Leonardo di Bonacci,
o que entre nós equivaleria a : "Pedro filho
de João" (o mesmo costume se encontra em muitos
outros países, quer da Europa, quer da Ásia;
os árabes, por exemplo, usam, ainda, "Ibn"
e que é a expressão "filho", como
os espanhóis o sufixo "ez" para expressar
"filho de" como em "Rodriguez", para
significar "filho de Rodrigo").
LOCAL DE NASCIMENTO E A ÉPOCA DE
PACIOLO
Luca Pacioli nasceu em um vilarejo, em
seu tempo denominado "Borgo di San Sepolcro",
hoje, apenas, "Sansepolcro", província
da cidade de Arezzo, na região da Toscana, na região
central da Itália, acredita se, por volta de 1445.
Teria, pois, 49 anos, quando se editou
em Veneza a sua "Summa de Aritmética, Geometria,
Proporção e Proporcionalidade" (na qual
está inserido o Tratado de Computo e Escrituração,
ensinando a partida dobrada).
Sansepolcro ergue se no alto de uma colina;
ainda hoje conserva seus ares medievais, o Palácio,
a Catedral, algumas igrejas da época, um seminário;
ainda hoje é um local que transpira a respeitabilidade
dos gênios qua abrigou e dos que ali nasceram (dentre
eles bastaria citar, além de Paciolo, Piero della
Francesca).
Paciolo foi coevo de Leonardo Da Vinci
(1452 1514), Michelangelo (1475 1564), Maquiavel (1469 1527),
Lourenço, o Magnífico (1449-1492), Girolamo
Savonarola (1452-1498), Piero della Francesca (1420-1492)
e de muitas personalidades de uma "época de
ouro" da civilização Mundial que resplandeceu
na Itália.
Quando Luca nasceu, Cosme de Médici,
então já banqueiro do papa, era o senhor de
Florença (1434 1464).
Luca era ainda era muito jovem quando Lourenço
o Magnífico (1449-1492), sucedendo a Cosme, assumiu
o Poder em Florença (1469).
Viveram também naquela época
os magníficos Sandro Boticelli (que produziu o famoso
quadro da Primavera, em 1477), Marsílio Ficino (o
grande filósofo que recuperou a imagem de Platão,
superando a Aristóteles) (1433-1499), o humanista
e poeta Angiolo Poliziano (1454 1494).
Paciolo mal saíra da adolescência
quando na Itália se inaugurou a indústria
de imprimir, pelo processo de Gutenberg (a 1ª obra
impressa surgiu na península em 1465, ano em que
por coincidência vinha ao mundo o magnífico
Maquiavel), mas, já adulto, quando nasceu Rafael
Sanzio (1483) o grande gênio da pintura, tendo vivido
a época dos grandes descobrimentos, ou seja, a de
Vasco da Gama (1469-1524), Cristóvão Colombo
(1451-1506), Américo Vespúcio (1454-1512)
e Pedro Álvares Cabral (1460-1520).
Se analisarmos as revoluções causadas com
a imprensa e com o Novo Mundo, somada a novos posicionamentos
nas artes e no pensamento, é possível compreender
o que se passava na mente de um homem de inteligência.
A tudo se acrescenta o entender que o tempo
de Paciolo foi aquele dos gênios e de uma expressiva
metamorfose histórica.
Não só a descoberta, pelos
europeus, de novas terras mudou mercados e visões,
mas, também, se viu a grande ascensão muçulmana
que abalaria até preconceitos do clero.
A queda de Constantinopla em 1453, como
conquista de Maomé II, provocou o fim do milenar
império romano, ensejando mudanças políticas
como as da paz de Lodi (1454) entre os Visconti (poderosos
senhores de Milão desde 1277) e Veneza (quando esta
também perdia o predomínio do mediterrâneo),
a conspiração dos Pazzi (tentando derrubar
os Médici) e que resultou no assassinato de Juliano
de Médici (1478) e o da conjuração
dos barões em Nápoles, contra o rei Fernando
(1485).
As influências ambientais ditadas
por eventos sociais, econômicos, políticos,
intelectuais, tem grande influência sobre a cultura
e a época do Renascimento italiano foi uma dessa,
ou seja, aquela que ensejaria a eclética formação
cultural de Luca (absorvida de Piero, Alberti, Da Vinci
e Rompiasi, especialmente).
Um fato curioso histórico, irônico
mesmo, é o de que, quando nascia Paciolo, o ducado
dos Sforza ia à falência, por uma "magnificência
alérgica a qualquer preocupação com
a Contabilidade", como escreveu o magnífico
Indro Montanelli, em co autoria com Roberto Gervaso (L'Italia
dei Secoli D'oro, edição Rizzoli, Milão,
1967), sendo salvo pelos toscanos "Medici" (da
região do Frei) que não só eram banqueiros,
mas, que possuíam excelentes controles contábeis.
A atmosfera cultural sob a qual nasce Paciolo
era a de apoio à cultura, fortemente incentivada
por Cosme dos Medici (que se torna senhor de Florença
em 1434 e até sua morte em 1464).
A riqueza dos banqueiros florentinos alimentarou
Brunelleschi (que construiu a famosa cúpula da catedral
de Florença, ao lado da qual existe sua estátua
de bronze), Donatello (o escultor mais original do renascimento
italiano), Ghiberti (que fez a porta do Paraíso do
batistério de Florença), Boticelli (o exímio
pintor da Primavera), Gozzoli (famoso pintor da cavalgada
dos reis), Felipe Lippi (pintor de quadros notáveis
nos templos religiosos), Frei Angélico (famoso pintor,
com muitas produções, inclusive no Vaticano),
Pico della Mirandola (erudito dialético), Marsílio
Ficino (grande filósofo), Alberti (arquiteto e humanista)
etc.
Os homens de fortuna na Itália,
especialmente na Toscana, fizeram fervilhar a cultura da
região e criaram um ambiente favorável à
produção intelectual.
Como escreveram Montanelli e Gervaso, na
Obra citada, referindo-se a Cosme, o povo intitulava a este
como "ídolo de toda a inteligência",
"pai da pátria", de protetor de "toda
a Itália".
A política dos Médici não
se alteraria até o fim do século XV e admite
se que tenha sido a principal a alimentar o milagre da Renascença.
Paciolo viveu uma Itália de lutas,
invasões, mas de fortíssimo teor intelectual,
com o renascer intenso da filosofia platônica.
Sucedendo a Cosme, Lourenço, o Magnífico,
que fora aluno de Marsílio Ficino, líder de
uma escola "platônica", utilizou seu poder
na continuidade de apoio à intelectualidade e isto,
obviamente, consolidou, de forma notória, a produção
de matéria artística, filosófica e
científica.
Sob esse clima de valor a cultura, muito
cedo Paciolo foi educado em sua cidade natal por um emérito
pintor e matemático, Piero della Francesca (também
nascido em Borgo di San Sepolcro, onde até hoje existe
sua casa, defronte ao campanário de São Francisco,
local que emocionado visitei em 1984), que lhe ensinou álgebra,
matemática e a divina proporção platônica.
Piero nasceu entre 1410 e 1420 (não
é precisa a data de seu nascimento, como muitas não
são as informações históricas
sobre toda a sua vida) e dedicou se a diversos trabalhos
em sua Província (em Arezzo e Sansepolcro), admite
se de 1455 a 1466.
O célebre pintor e intelectual,
em 1469 esteve na cidade de Urbino, após exercer
cargos públicos em Sansepolcro e aceitar empreitadas
em Arezzo; depois de 147O parece ter ficado a maior parte
do tempo em sua cidade (nesse período é que
Piero Della Francesca teria lecionado para Paciolo).
ATIVIDADES DE PACIOLO EM VENEZA INÍCIO
DE SUA ATUAÇÃO
Acredita se que a ida de Paciolo para Veneza
deve se ao mercado de trabalho que ali existia e que faltava
em sua vila de nascimento; aos 20 anos, empregou se na casa
do próspero comerciante judeu Antonio Rompiasi, aos
filhos do qual dedicaria uma obra.
Entrementes, estudou na Escola de Domenico
Bragantino, um "público leitor de matemática",
como na época se denominavam os especialistas da
área que possuíam concessão para o
magistério.
Não se sabe, ao certo, a completa
função de Luca na casa comercial de Rompiasi,
mas admite se que fosse a de pedagogo dos filhos dele, considerados
os conhecimentos de aritmética, religião e
arte que já trazia de San Sepolcro.
Admito que naquela época Paciolo
já tivesse conhecimento das partidas dobradas (conseguimos,
junto com o Prof. Marcelo Berti, ilustre docente de História
da Contabilidade na Universidade de Pisa, encontrar no Museu
Cívico de San Sepolcro, documentos escriturados em
Partidas Dobradas, da época em que Paciolo estava
naquela vila e possuía ampla convivência com
a casa dos religiosos, esses que se empenhavam também
na educação doa ainda muito jovem Luca).
Melis, entretanto, entende que a grande
prática sobre comércio Paciolo a adquiriu
em Veneza, junto a Rompiasi, o que também justifica,
em parte, ter seu Tractatus se dedicado só ao ramo
comercial.
Até seu trabalho em Veneza, que
culminou com um livro sobre álgebra, ultimado em
147O, Luca não era, ainda, um Frei.
A "Summa" foi o mais importante
dos dez livros escritos (editada em 10 de novembro de 1494)
mas, não o primeiro livro de Paciolo, pois, aos 25
anos, já com grande acervo cultural, produziu uma
obra, dentro de sua grande vocação pelos números
e cálculos.
De tal obra tem se referência, mas
essa se perdeu, não deixando prova histórica;
sabemos que existiu porque Paciolo a ela se refere em sua
"Summa".
A PASSAGEM POR ROMA - NOVOS PROGRESSOS
CULTURAIS COM ALBERTI
A inquietude cultural de Paciolo, naturalmente
despertada em seus verdes anos, por Piero Della Francesca,
em Sansepolcro, parece ter feito com que se sentisse atraído
para absorver novas luzes.
Tais luzes, por influência natural,
deveriam provir de um grande mestre que muito se identificava
com o pensamento de Piero.
Como escreve Alberto Busignani, biógrafo
daquele genial pintor e mestre, Leon Battista Alberti era
um "espírito afim" ao de Piero (A. Busignani
Piero Della Francesca, pág. oito, Ediciones Toray,
Barcelona, 1968) e é muito possível que este
tenha repassado a Paciolo a sua forte impressão sobre
aquele.
Não é, pois, sem razão
que por volta de 147O ou 1471 (é imprecisa a referência
histórica) Luca desloca se para Roma e passa a residir
na casa de Leon Battista Alberti, embora não por
muito tempo.
É aí que lhe causam profundas
influências os estudos de Teologia e de Filosofia
que encontraram terreno fértil na mente lógica
de Paciolo, essa treinada para a Aritmética e Álgebra.
A aproximação com os textos
relativos ao que Alberti lhe transfere, naturalmente, despertam
a "consciência religiosa" mais aprofundada
e isto iria induzir o genial discípulo a ingressar
em uma Ordem que tanta influência na Itália
exercia, pela pureza de seus fundamentos.
Alberti era escultor, pintor, músico,
filósofo, em suma, um homem afinado com a policultura,
um homem do Renascimento (1404 1472) e de sua autoria, famosíssima
na história da arte, é a fachada da Igreja
da Santa Maria Nova e do Palácio Ruccellai, ambos
em Florença (terra de nascimento de Alberti).
Paciolo encontrou aquele gênio já
no fim da vida, com grande maturidade intelectual, competente
para exercer a grande influência que, de fato, teve
e em plena vitalidade porque, em Roma, executava as obras
do Palácio Veneza.
Outros estudiosos, todavia, atribuem a
maior religiosidade de Paciolo ao fato de dois irmãos
deste haverem entrado para a Ordem dos Franciscanos (em
Borgo di Sansepolcro, onde o Santo toscano era devotado
com grande eloqüência e ao qual uma Igreja fora
no vilarejo dedicada).
O FREI LUCA PACIOLI DA ORDEM DOS FRANCISCANOS
E O MAGISTÉRIO
A fé por São Francisco, na
cidade de Paciolo, parece ter se iniciado no fim do Século
XIII, por volta de 1285, introduzida por um frei chamado
Tommaso da Spello que ali aportou com o objetivo de construir
a primeira igreja, em face de terreno doado pela comunidade
(desse antigo templo hoje só existem restos da fachada).
Com a fé consolidada no santo de
Assis, com os irmãos que haviam ingressado na ordem,
com o suporte de teologia recebido de Alberti, outra não
poderia ter sido a decisão de Paciolo, se não
a de se tornar Frei, o que ocorreu por volta de seu retorno
de Roma, em 1471 (Menores de São Francisco).
Outros autores admitem seu ingresso na
ordem somente em 1494 (J. Vlaemminck).
O agora Frei Luca Bartolomeo Pacioli di
Borgo di San Sepolcro parece ter vestido o hábito
na sua própria terra natal, segundo Melis (Federigo
Melis, Storia della Ragioneria, pág. 62O, editor
Zuffi, Bolonha, 195O).
Poucos anos depois, foi lecionar matemática
em Perugia (cidade perto Assis, onde estava o principal
convento da Ordem Franciscana) provavelmente de 1475 a 148O,
firmando se no magistério.
Em tal cidade escreve seu segundo livro,
um pequeno volume, ainda sobre álgebra.
Ao prestígio da Ordem, à
respeitabilidade do hábito, Paciolo somava sua imagem
de mestre e se consolidava como um escritor; a vocação
para o ensino sempre em Luca foi algo manifesto e irreversível.
Sua obra manuscrita de 1478, de Perugia
(Tractatus Matematicus ad discípulos perusinos) conserva
se na biblioteca do Vaticano sob n.º. 3.129 e abrange
Aritmética, Geometria, Álgebra, Câmbio,
Moedas etc. e Lamouroux admite que possa ter sido o embrião
da "Summa" (F. Martin Lamourox Contabilidade,
pág. 3O2, ed. Caja de Ahorros, Salamanca, 1989).
A estada de Paciolo em Perugia não
é bem precisa (Melis admite de 1475 a 1478 e Lamouroux
até 148O, assim como ainda outros preferem declará
la incerta), mas, ali esteve lecionando e produziu o manuscrito
referido e que continha matéria de álgebra
e de cálculos mercantis, semelhante, em alguns pontos,
aos assuntos da "Summa".
O professor Mário Mari, todavia,
em recentes pesquisas que elaborou, afirma que a atuação
no magistério, em Perugia, foi de outubro de 1477
a junho de 1480.
QUASE MAIS 2O ANOS DE ANDANÇAS E
A PRODUÇÃO DA "SUMMA"
De Perugia o Frei deslocou se, para Veneza,
novamente, onde ficou pouco tempo, viajando e localizando
se em Zara (perto de Veneza, mas, já na Iugoslávia).
Não se conhece o motivo da transferência,
mas é em Zara que ele escreve o seu 3º livro
de Matemática, também perdido, em 1481.
De tal livro, só sabemos da existência
pela referência que lhe faz Paciolo em sua SUMMA,
quando afirma que nele havia passado de leve sobre o assunto
e que agora (na Summa) estava a desenvolver em outro de
maior profundidade.
De Zara, volta ele à Toscana, dessa
vez à Florença e depois a Perugia.
Depois vai à Roma, para ensinar.
De 1490 a 1494, ainda no magistério,
leciona em Nápoles e em Pádua.
Volta a Florença mas, finalmente,
desloca se para Veneza para revisar a sua obra "Summa
de Aritmética, Geometria, Proporções
e Proporcionalidade" (que se admite tenha concluído
em Perugia, em 1487).
Parece não haver dúvida,
todavia, de que a "Summa" tenha sido produzida
e concluída na segunda metade da década de
8O do século XV (portanto, 200 anos depois que o
processo das partidas dobradas já estava consolidado
na Itália; o mais antigo documento da partida dobrada
na Itália é da última década
do século XIII).
O tempo que decorreu entre a conclusão
da volumosa obra e sua edição, de aproximadamente
7 anos, não é de admirar se, considerando
se as condições da época e a preferência
que os editores tinham por livros de melhor aceitação
no mercado (Bíblia, obras do latim clássico
etc.); também, o alto custo das edições
(muitas perdas e pequenas tiragens) não estimulava
a criar um grande fundo editorial (por questão de
giro de capital).
O referido livro de Paciolo (cuja reprodução
do original possuo), além de volumoso, tem muitos
desenhos, fórmulas e arte gráfica (as letras
iniciais de parágrafos e distinções
são desenhadas artisticamente e consta que foram
da lavra de Leonardo).
O editor Paganino de "Paganini",
imprimiu a "Summa" em e esta veio à luz
em 10 de novembro de 1494.
PACIOLO E LEONARDO DA VINCI
Paciolo tornou se amigo de Leonardo da
Vinci, um dos maiores gênios da humanidade (1452 1519),
figura impar do Renascimento.
Acredita-se que partiram, ambos, para Milão,
em 1482, sob o custeio e proteção de Ludovico
Sforza (1451-1508), poderoso Conde de uma Família
de rara importância (O Castelo onde vivia, em Milão,
está quase intacto até hoje e constitui motivo
de atração turística).
O tronco dos SFORZA se iniciou com Muzio
Attendolo (1369 1424) e tinha em Ludovico, cognominado,
"O Mouro", (1452-1508), um de seus expoentes;
o Duque muito valorizou as artes e as técnicas e
em razão disto "investiu" nos dois sábios
(Da Vinci e Paciolo) e os trouxe para Milão.
De 1496 a 1499, ambos os gênios permaneceram
naquela cidade, até à época da invasão
dos franceses (que obrigou a fuga do Duque).
Perdido o apoio de Ludovico, pela circunstância
desastrosa da guerra, Paciolo voltou a Veneza.
Em Milão, durante sua permanência,
o frei ensinou matemática na corte e consta que a
tenha, igualmente, ensinado a Da Vinci as noções
das "divinas proporções".
Tais "proporções",
como as difunde Paciolo, são o resultado de comparações
harmônicas; ou seja, admitem-se divinas quando um
segmento de reta dividido em partes desiguais a parte menor
está para a maior assim como a maior está
para o todo.
Admite se, inclusive, que a famosa "Ceia
Sagrada", iniciada em 1495 e concluída em 1497,
(tão reproduzida e conhecida), de Leonardo (pintada
na parede do Convento de Santa Maria delle Grazie), tenha
tido como inspiração as divinas proporções
que Paciolo tanto a defendia (o frei na época já
tinha editada a sua famosa "Summa").
Guido afirma ainda que Leonardo só
se interessou pelos números, pela geometria superior,
depois de sua convivência com Luca.
Lamouroux escreve que Paciolo só
foi conhecer Da Vinci, em Milão (F. Martin Lamouroux,
Contabilidad, pag. 3O2, Salamanca, 1989) e o questionamento
do encontro dos dois fica, desta forma, dividindo opiniões,
mas, é inequívoco que se tornaram amigos e
que trabalharam juntos.
Assegura Ângelo Guido em sua obra
sobre o mito de Da Vinci (referida na bibliografia) que
este já havia esboçado o desenho da Ceia (projetos
acham se na Academia de Veneza e no Castelo de Windsor,
atualmente) quando depois os modificou para adapta-lo de
acordo com os ensinamentos de Paciolo.
Admite Guido que na mesma época
em que Leonardo pintava a Ceia, Paciolo escrevia o seu outro
livro "As Divinas Proporções", inspirado
nas idéias de Platão (na obra "O Timeu")
e de Euclides.
De fato, pelas ilustrações
de tal obra (cuja reprodução integral possuo
em minha biblioteca) pode-se perceber nas Figuras geométricas,
quer nas Sólidas, quer nas vazadas, a fixação
dos pertinentes "Pontos de equilíbrio".
Logo no Prólogo do referido livro,
Paciolo destaca o nome de Leonardo como "ilustre arquiteto
e engenheiro" e acrescenta: "compatriota nosso,
florentino".
O frei concluiu a obra em 1498 e a dedicou
ao seu protetor Ludovíco Sforza (foi editada em Veneza
pelo mesmo editor da Summa).
A "Summa", de 1494, fora dedicada
a "Guido Ubaldo Duca d'Urbimo" (possuo, inclusive,
um quadro pintado, copiado do original de Jacopo di Barbarí,
com Paciolo ensinando ao Duque de Urbino cujo original está
no Museu do Banco de Nápoles, em Capodimonti, Nápoles).
Tal a amizade que Da Vínci tinha
a Paciolo que em 1499, após a fuga de Ludovico, com
este se afasta de Milão, viajando juntos.
Rapidamente passam por Mantua e Veneza
para, depois, residirem juntos em Florença.
A admiração de Paciolo era
tamanha, por Leonardo, que à este faz muitas referências
calorosas e elogiosas, em outra obra que começou
a escrever quando estivera em Milão:
"De Viribus Quantitatis" (que
se acha, em seu original, na Biblioteca da Universidade
de Bolonha).
O "De Viribus" foi uma livro
que visou a estimular o gosto pelos números e por
isto está plena de "jogos" e "curiosidades"
matemáticas, sendo de cunho popular e incluindo formas
de estabelecer sofismas através de cálculos,
mas, não foi editado.
Tudo faz crer, todavia, que Leonardo e
Paciolo separam-se e só se reencontraram em Roma,
em 1514, quando Leão X convidou o frei para lecionar
(e quando esse já havia passado por Veneza, Perugia,
Florença e Borgo di San Sepolcro).
Escreve Marinoni que o encontro deu-se
em época em que "Leonardo já estava envelhecido
e descrente" (Augusto Marinoni - "De Divina Proportione",
pag. 6, ed. Pizzi, Milão, 1982), ou seja, pouco antes
que fosse para Amboise, no Vale do Loire, aonde veio a falecer,
em 1519, em "Clos Lucée" e onde está
enterrado (comoveu-me, profundamente, quando vi, pessoalmente,
a singeleza do túmulo de tão grande homem,
com uma lápide não menos singela, em uma modesta
capelinha do Castelo de Amboise).
Paciolo, igualmente, vizinho já
estava de sua morte que hoje já se admite, com margem
de segurança, ocorreu em 1517 (vários autores
entendiam que o falecimento do frei tivesse sucedido em
1515).
A morte de Paciolo, foi, entretanto, em
1517, conforme estudos idôneos do reverendo Ivano
Ricci, bibliotecário, em Sansepolcro, do Museu Cívico
e o sepultamento deu-se naquele local na igreja de San Giovanni
D'Afra.
O encontro dos dois expoentes, em Roma,
foi, assim, uma despedida sem retorno, mas, inequívoca
ficou, para a história, a identidade intelectual
que estabeleceram.
Em memória de seu ilustre filho,
nos fins do século passado, a comunidade ergueu uma
estátua de bronze a Luca e essa hoje adorna um destacado
recanto de seu vilarejo natal.
Os dois grandes amigos que o destino juntou,
deveria, este mesmo, entretanto, separar geograficamente
em seus leitos de morte; o túmulo de Leonardo está
em Amboise, França e o de Paciolo em Sansepolcro,
Itália.
OS ÚLTIMOS ANOS DE PACIOLO
A vocação do Frei, segundo
Aloe e Valle, não parece ter sido monástica,
pois, viajou freqüentemente.
Após a estada em Florença,
com Da Vinci, Paciolo ensinou nas Universidades de Pisa
e de Bolonha (entre 15OO e 15O7).
Em 15O1, em Florença, o frei contou
com a proteção do prestigioso cardeal Soderini.
Existem provas documentais de tais passagens,
inclusive recibos de salários de magistério
assinados por Luca.
Em 15O8, em Veneza, Paciolo proferiu uma
aula magna em abertura de um curso da igreja de São
Bartolomeu do Rialto, tratando da geometria euclidiana (livro
V de Euclides) e das Proporções; na mesma
época revisou, para seu editor, as "Divinas
Proporções" (que sairia em 15O9) e a
edição latina dos "Elementos".
Em 151O foi nomeado "Comissário"
do Convento franciscano de Sansepolcro e ali ficou até
que Leão X o chamasse a Roma (quando se reencontrou
com Da Vinci), em agosto de 1514.
Tudo nos prova que as atividades finais
de Paciolo foram tão intensas quanto às de
sua existência, esta que cumpriu dividindo-se entre
as suas missões prediletas, como Professor e Escritor,
ou seja, a de um gênio da difusão cultural.
A cultura que conseguiu acumular, quer
pelo acesso aos livros mais preciosos que leu (como os da
biblioteca do Duque de Urbino) quer pela influência
de Piero, Alberti, Da Vinci, principalmente, ele procurou
retratar em suas obras (10 livros) e em suas lições.
Sabendo conquistar amizades, como revela
o famoso historiógrafo Prof. Esteban Hernández
Esteve (em sua introdução ao livro De lãs
cuentas y escrituras), relacionou-se com nobres e todos
os papas de seu tempo, sempre no sentido de valorizar-se
culturalmente e de transferir cultura.
NO MEIO MILENIO DA SUMA UMA CONSAGRAÇÃO
MUNDIAL
Quando ocorreu o meio milênio da
edição da "Summa", o mundo inteiro
reverenciou o gênio italiano em uma Convenção
Internacional.
O local do encontro foi em um palácio,
o Centro Zitelle, na ilha onde viveu Antônio Rompiasi
e na casa do qual Paciolo lecionou para os descendentes
daquele comerciante - a ilha Judaica, em Veneza.
Várias entidades patrocinaram o
monumental encontro, dentre elas: a Sociedade Italiana de
História da Contabilidade (a qual tenho a honra de
pertencer, como membro honorário), o Conselho Nacional
dos Doutores em Comércio e o Conselho dos Contadores
e Peritos Comerciais da Itália.
Ocorreu dos dias 9 a 12 de abril de 1994,
com uma série de palestras, festividades e comemorações.
Foram apresentados muitos trabalhos, provenientes
da Alemanha, Japão, Espanha, Nova Zelândia,
Austrália, Estados Unidos, Índia, Inglaterra,
Bélgica e foram selecionados 44 deles para publicação.
A edição se deu sob a coordenação
de uma comissão científica, composta dos mais
eminentes professores doutores e historiógrafos,
das Universidades mais famosas da Itália, dentre
os quais os eméritos intelectuais Carlo Antinori,
Giuseppe Catturi, Giuseppe Bruni, Umberto Bertini, Antônio
Amaduzzi, Maurizio Fanni, Rosella Ferraris, W. Santorelli
e Giuseppe Bernoni.
A edição foi feita pela IPSOA,
em 1995 e possui 484 páginas.
A Itália, em homenagem a seu filho ilustre, na ocasião
cunhou uma moeda com a esfinge de Luca e estampou um selo
postal (ambos os possuo), assim como facilitou aos participantes
uma peregrinação a Sansepolcro (terra natal
do frei).
Tive a honra de representar o Brasil no
conclave, inclusive levando trabalho de pesquisa sobre a
vida do ilustre personagem homenageado.
Achavam-se, no evento, representantes do
Brasil, Japão, Rússia, Estados Unidos, Inglaterra,
Austrália, Alemanha, Portugal, Espanha, França,
Canadá, em suma de todos os continentes.
O frei italiano Luca Pacioli é um
ícone de nossa história, não só
porque teve a primeira obra impressa onde inseriu um Tratado
sobre Escrituração por Partidas Duplas, mas,
especialmente por ter rompido uma inércia e por fazer
conhecido um dos mais importantes critérios de registro
que toda a história da humanidade conheceu.
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